A Santa de Rabo - Parte IV

   Pelo sim, pelo não, cumpro o ritual de revelar a personagem por trás da caricatura. Tem por mal (não maldade) vossa contadora de histórias, criar hipérboles e eufemismos para suavizar os olhos cansados de tanta realidade. Mas basta dizer que Santa não parecia tão cheia de si quanto esperava a plateia que assistia, às escondidas, seu dramalhão. Nem tão boa mãe. Na escola do menino ficou conhecida pelos atrasos e pelas ausências. Não comparecia às reuniões, alegando falta de tempo e nem percebia o olhar perdido do filho. O sorriso rasgado da mineirinha não era capaz de disfarçar sua profundidade: rasa.
   Nem a satisfação de perambular pelos corredores da Escola de Artes fantasiada de "cult multimidia" omitia a angústia de ter que se deitar com alguém em troca de migalhas. Em troca de coisas que devemos buscar sozinhos.
   Depois de certo tempo, os olhos da moça que ria de tudo foi perdendo o brilho. Os olhos de Santa foram mergulhados num  cinza profundo lhe acrescentando alguns anos.
   Outro acontecimento que desandou seu rebolado foi o rompimento repentino com o diretor, que depois de experimentar da seiva, pediu pra pular fora do rolo. "Não valeria as perdas", repetindo exatamente o que o amante arrependido disse pra coitadinha, sem nem titubiar. Dois encontros depois da noite que imaginou tê-lo conquistado de vez, a aprendiz sentiu escorrer a primeira lágrima de muitas até aqui.
   Logo que chegou em casa, concluiu a causa-morte do seu caso: Não era boa de cama. Ao girar a maçaneta da porta, seguiu os gemidos e as palavras indecentes que jamais eram ditas entre aquelas paredes. Santinha pegou o velho no flagra com a vizinha do terceiro andar. A mesma que sempre se oferecia pra olhar a criança em caso de necessidade. Uma mulher madura e bem sucedida. Uma viúva que cria muito bem os filhos sozinha. Uma mulher séria, de poucos sorrisos. Gritando, suando e salvando a vida do médico.
   Se esquivou para não ser vista e se juntou aos grãos de areia da praia para chorar sossegada.
Continua...
(Barbara-Ella.
  

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