A Santa de Rabo VIII

Depois daquele sonho, Santinha nunca mais foi a mesma.  Passou a questionar todo o estilo de bravura que lhe franzia a testa. Desejava repousar, de fato, dos acidentes e dos males que causou a si mesma.

Dez meses se passaram, e vez ou outra ainda se pegava pensando no Rio e no cheiro da maresia. Mas no Rio não dava pra ficar.... "Caro de viver e moldado a padrões turvos demais pra quem cresceu no mato", pensava.

Pela primeira vez aquela de boca rosa tinha os cachos desgovernados de natureza. O lenço de chita previu o fim do desuso, quando negou oportunidades óbvias e suportou o peso do não sobre o  outro, na ponta da paciência. 

((Tem chefe que não se contenta com não...))

Santa provou que há quem piora os dias do outro por prazer, e o desgosto dali a fez selecionar a hipótese de se perder no mundo sem ser conduzida pelo filho das entranhas.

Quase desejava se eximir da responsabilidade de ter dois corações.

Sua irmã prometeu ajudá-la  com a criança.  Colégio, plano de saúde, cuidados e paparicos seriam de sua responsabilidade até que Santa se firmasse em outro lugar. Onde fosse sinceramente mais feliz.

Consultou mapas de pequenos paraísos distantes, pois aquele horizonte não cabia em seus quadris. Ela até que tentou, mas o belo não a socorreu do ofício de fingir ser.

Carregava uma memória a óleo, do nu oblíquo de sua volúpia. Era tudo falso na vida real. Não pertencia àquele lugar. Ninguém a descobriu por trás do disfarce. Não passava de um humano medíocre.  Uma revolucionária sem ambições, sem criatividade.

No fim do expediente mais longo do mundo, quando os ponteiros pareciam ameaçar o crepúsculo, o celular disparou o sinal de email.
Os olhos claros, impactados pela supresa, iluminaram a galeria já escura...

Silenciosamente, redigiu sua demissão a punho. Não teve qualquer sentimento com relação a isso. Era, enfim, a hora de partir.

Vedado o envelope de cola e recolhidos seus poucos pertences, Santinha apagou a luz azul do abajur e trancou o cadeado de segredo: V.E.N.E.N.O.

Acreditou que ali não deixaria saudades, quando não conseguiu se lembrar de uma coisa boa pra levar.

Santa limpou os pés e saiu sem olhar pra trás.

(Barbara-Ella

Imagem: arquivo pessoal da #autorasolar#

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